"Joker"
Foi em setembro de 1988 que visitei o Reino Unido pela primeira vez. A viagem levou-me a Londres, mas também a Cardiff, no País de Gales. Tinha acabado de cumprir 16 anos e havia algum dinheiro no bolso, muito provavelmente vindo das prendas de aniversário, no fim de agosto. Caminhava pelas ruas comerciais de Cardiff e avistei uma loja com livros de banda desenhada. A minha preferência centrava-se na BD franco-belga e não era muito fã de super-heróis. Conhecia-os quando, na barbearia do meu avô, na rua António Enes, no Porto, sentava-me a ler todas as publicações da Agência Portuguesa de Revistas, desde os “Tarzan”, “Major Alvega”, “Homem-Aranha” e os “Fantásticos 4”. Apesar dessa indiferença, como estava em território de língua inglesa, resolvi comprar algo “local”. Foi então que reparei num livro com uma capa diferente: era um “smile” amarelo, com uma ligeira gota de sangue em cima de um dos olhos do boneco sorridente. Aquilo atraiu-me pela ousadia gráfica e peguei no livro, uma recolha de vários episódios. Agradava-me a oportunidade de poder ler uma história completa, em vez de andar a tentar seguir os fascículos. A única coisa que não me agradou foi o preço, pois ultrapassava o “budget” de um adolescente médio português. Mesmo assim, estava decidido a levar uma recordação em BD da minha primeira viagem a terras de Sua Majestade. Ao lado desse livro estava um mais fininho e, por coincidência, o argumento era do mesmo autor do livro cujo preço era demasiado elevado, um tal de Alan Moore. A capa era o “Joker”, com uma câmara fotográfica apontada para o leitor e a dizer “Smile”. O mesmo autor e mais um “smile”… E um preço que também já me fazia sorrir. Percebi que, apesar de fino, era uma história completa e o preço agradou-me. Estava ali a minha recordação perfeita. Li a história quando cheguei a Portugal e recordo-me, nessa primeira impressão, que estava perante uma das melhores histórias que alguma vez tinha lido. Aquilo era Batman, mas não era o Batman. Era uma viagem adulta e psicológica às raízes do “Joker”, o homem que se tornara num vilão porque teve “um mau dia”. Na história, o “Joker” queria provar como uma pessoa inocente e cheia de princípios também poderia perder o juízo caso tivesse igualmente “um mau dia”. Havia uma cena terrível do ataque a Barbara Gordon, a filha do comissário aliado de Batman. Nunca tinha visto aquilo nas aventuras dos super-heróis, embora já conhecesse coisas bem “piores” noutras BD’s que já lera. Na minha vida, procurei nunca ter “um mau dia” – embora todos os dias sejam bons para endoidecer. Acho que tive uma infância e adolescência “saudável”, rodeado destes “tratados”. O tal livro que não consegui comprar naquela altura, foi depois publicado numa edição em Português do Brasil, que li na noite de 22 de setembro de 1990 – sei disso por razões pessoais e é perfeitamente dispensável essa informação, exceto para mim que optei por a mencionar. Ao fim destes anos todos, “Watchmen” e “The Killing Joke” ainda continuam a ser referências e a inspirar filmes e séries de televisão. O mais recente é o filme "Joker", que recomendo vivamente, sobretudo pela interpretação de Joaquin Phoenix - aquilo tem de dar Óscar. Hoje, quando olho para as todas as adaptações, lembro-me apenas – com um sorriso de “Joker” – quando ainda éramos uns poucos que sabiam o quanto aquilo era bom.



Comentários
Enviar um comentário