Duas horas em 1917
Dois soldados estão deitados quando surge um terceiro homem – cuja face não vemos – e diz a um deles para escolher um homem. O soldado escolhe o homem ao seu lado, deitado junto a uma árvore. Quando se levanta, a câmara ergue-se com ele para nunca mais parar de seguir os dois soldados durante cerca de 1h50m do filme “1917” – haverá depois um momento em que uma imagem em negro marcará a passagem de algumas horas. Tudo é filmado como se estivesse a acontecer em tempo real, onde os dois soldados têm de levar uma mensagem de ponto A para ponto B que vai impedir o massacre de 1600 homens. É uma história simples, uma Odisseia que assistimos em cenários de guerra das trincheiras. Um filme-viagem, em que os personagens passam por perigos e guerras esforçadas para cumprir o seu destino. Sam Mendes, que em “Beleza Americana” mostrou um saco de plástico a voar ao vento como sendo a coisa mais bonita que um dos seus personagens havia filmado, leva-nos ao sabor do vento, sempre para a frente, com a câmara nas costas dos soldados Blake e Scofield – interpretados por Dean-Charles Chapman e George MacKay, dois completos desconhecidos ao lado de actores "secundários" como Colin Firth, Beneditch Cumberbatch, Richard Madden e Mark Strong, mas que nunca mais o serão. A história deste ficcionado dia 6 de Abril de 1917 tinha de ser contada assim. Poderá até haver quem veja neste grande plano-sequência de mais de uma hora a tentativa de demonstração de alguma superioridade e exibicionismo da parte de Sam Mendes (como se ele precisasse), mas a história tinha de ser contada mesmo assim. Hitchcock quis fazer “A Corda” como se fosse uma peça de teatro e Iñárritu optou por fazer “Birdman” com este estilo. Mas, Sam Mendes, para poder contar este episódio inspirada nas memórias da I Guerra do seu avô – de origem portuguesa -, foi “obrigado” a filmar com este estilo. E ainda bem que assim aconteceu, para que nós, espectadores – aos quais aconselho a ir ver em IMAX – beneficiemos daquilo que ainda se pode chamar de CINEMA. Por isso é que ele vai ganhar o Óscar.


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