Quando “Astérix” visitou Lisboa
Foi em Fevereiro de 1938 que “Astérix” visitou Lisboa. Poderá parecer um pouco estranha esta frase, sobretudo quando o pequeno herói gaulês nasceu apenas em 1959, nas páginas da revista “Pilote”, com textos de René Goscinny e desenhos de Albert Uderzo. Naquela altura, em 1938, ainda nem se imaginava que, amanhã, em todo o mundo, vai haver mais um livro das suas aventuras com uma tiragem global de 5 milhões de exemplares. De facto, quem visitou Lisboa em 1938 foi um outro pequeno gaulês, com apenas 11 anos, que, na companhia dos pais, na viagem de barco entre a Argentina e França, fez escala na capital de Portugal. Estamos a falar de René Goscinny, o genial autor dos argumentos que fizeram rir várias gerações de leitores e que, mesmo tendo desaparecido do nosso convívio em 1977, ainda hoje nos continua a fazer sonhar. A vida pessoal de Goscinny não teve tanta graça quanto as aventuras do seu herói gaulês. Com apenas dois anos, trocou França pela Argentina, onde o pai trabalhava como engenheiro e estava bastante activo na comunidade judaica local – era de origem polaca e Goscinny significa “hospitaleiro”. O pequeno René foi estudar para o colégio francês e tinha uma missão na vida: fazer rir. Desenhava muito e criava piadas. De tempos em tempos, a família fazia uma viagem transatlântica, via barco, entre a América Latina e a Europa. Passavam por paragens exóticas, como Rio de Janeiro, Jamaica, Senegal, Marrocos e… Portugal. Foi numa dessas viagens, em Fevereiro de 1938, que ficou o registo fotográfico da passagem por Lisboa e que, ainda hoje, está nos arquivos da família, geridos pela filha do autor, Anne Goscinny – que tinha apenas 9 anos quando o pai morreu. E ali está ele, como um pequeno “Astérix”, acompanhado por pai e mãe, com aquele seu sorriso característico e que nunca o abandonaria ao longo da vida – seis anos mais tarde, o pai morreria no dia de Natal e parte da sua família seria exterminada em campos de concentração. Depois, houve os anos de desemprego em Nova Iorque e ainda as dificuldades iniciais antes de chegar à fama. Só que, antes disso tudo acontecer, podemos ver Goscinny no miradouro de Santa Luzia, a posar em frente ao monumento de homenagem a um Júlio que não é César, mas sim Castilho, Júlio Castilho, homem de letras - tal como o será um dia Goscinny -, que para além de jornalista, poeta e político é o “pai” dos Olissipógrafos, aqueles que estudam e amam as histórias de Lisboa.
Foto: © Archives Anne Goscinny
A segunda foto é também ela num miradouro e sentimo-nos tentados a considerar que se trata do mesmo local, apenas noutra perspectiva. Só que a ausência da vista para o Tejo e telhados de Alfama, faz-nos duvidar. Ao observar com mais atenção, vemos que as colunas da pérgola são diferentes e há uma paisagem urbana desfocada. Uma busca por imagens de miradouros antigos de Lisboa permite-nos identificar facilmente o segundo local: trata-se do miradouro da Senhora do Monte, bem mais acima, na Graça. Havia lá uma pérgola, que já não existe nos dias de hoje.
Foto: © Archives Anne Goscinny
Apesar de Astérix – ainda – não ter vivido uma aventura na Lusitânia de Viriato - também ele herói da resistência contra os romanos e que leva J.C. a declarar: “Há nos confins da Ibéria um povo que não se governa nem se deixa governar” -, podemos hoje afirmar que já fomos visitados por um pequeno herói gaulês, o “verdadeiro” herói de “Astérix”. Ficamos a aguardar pela visita do herói de ficção. Pode ser que, agora que se conhece esta passagem de Goscinny por Lisboa, haja aqui um mote para convencer os novos criadores a uma aventura nestas paragens. Por tradição, a seguir a uma história na aldeia, segue-se uma outra fora daquele cenário. E a aventura que chega amanhã às livrarias, é passada na aldeia…
Foto: © Archives Anne Goscinny
A segunda foto é também ela num miradouro e sentimo-nos tentados a considerar que se trata do mesmo local, apenas noutra perspectiva. Só que a ausência da vista para o Tejo e telhados de Alfama, faz-nos duvidar. Ao observar com mais atenção, vemos que as colunas da pérgola são diferentes e há uma paisagem urbana desfocada. Uma busca por imagens de miradouros antigos de Lisboa permite-nos identificar facilmente o segundo local: trata-se do miradouro da Senhora do Monte, bem mais acima, na Graça. Havia lá uma pérgola, que já não existe nos dias de hoje.
Foto: © Archives Anne Goscinny
Apesar de Astérix – ainda – não ter vivido uma aventura na Lusitânia de Viriato - também ele herói da resistência contra os romanos e que leva J.C. a declarar: “Há nos confins da Ibéria um povo que não se governa nem se deixa governar” -, podemos hoje afirmar que já fomos visitados por um pequeno herói gaulês, o “verdadeiro” herói de “Astérix”. Ficamos a aguardar pela visita do herói de ficção. Pode ser que, agora que se conhece esta passagem de Goscinny por Lisboa, haja aqui um mote para convencer os novos criadores a uma aventura nestas paragens. Por tradição, a seguir a uma história na aldeia, segue-se uma outra fora daquele cenário. E a aventura que chega amanhã às livrarias, é passada na aldeia…




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