E foi assim, em Hollywood...
Uma declaração inicial sobre Tarantino e o seu "Era uma Vez em Hollywood":sou fã dele desde que vi o "Reservoir Dogs" no Fantasporto. É fácil comparar os seus filme, pois ao fim de mais de 25 anos, só existem 9. É como se cada um fosse uma edição do Barca Velha do cinema e depois vemos qual o ano que mais gostamos. Por exemplo, o "Pulp Fiction" está lá no topo, mas, por sorte, o Monumental exibiu-o no grande ecrã dois dias antes de ir ver o mais recente e assim, o filme de 1994, estava bem fresquinho no "palato" para poder comparar com "Era uma Vez em Hollywood", colheita de 2019. E a conclusão é: não tem nada a ver. Tarantino está com os taninos mais macios e saborosos. Há menos sangue, mas aquele que há é de qualidade. Os diálogos, tão típicos dos seus filmes, passam de forma imperceptível, mas estão lá como na cena em que DiCaprio ensaia o guião na noite de sábado - "espanhol, espanhol" - e o reproduz na cena no dia seguinte. O filme, para quem diz que "não tem história", passa-se em três dias, repararam? No fim-de-semana de 8 e 9 de Fevereiro de 1969 e, seis meses depois, no dia do massacre de Sharon Tate, 8 de Agosto de 1969. Os primeiros dois dias servem para contextualizar os personagens para aquilo que se vai passar seis meses mais tarde. Está cheio, repleto, de referências a eventos reais de há 50 anos - o que implica alguma cumplicidade do espectador à priori ou à posteriori (Exemplos de cultura geral que é preciso ter para perceber o alcance de algumas cenas: a canção "Always is always forever/ As long as one is one", era realmente uma canção da "Família Manson"; O Spahn Movie Ranch é real e havia mesmo uma mulher que tinha sexo com o dono, George, para que ele autorizasse o grupo a residir no espaço; essa mulher era também apelidada de "Squeaky", embora não tenha depois participado no massacre de Sharon Tate - foi presa mais tarde quando tentou assassinar o presidente Gerald Ford). Os dois actores, Di Caprio e Brad Pitt estão geniais e mereciam todo um tratado sobre a forma como ambos se completam, como duplos um do outro. A cena da luta contra Bruce Lee é uma lição de realização em um único take - e quem nunca desejou vencer uma luta contra Bruce Lee? As "poucas" cenas de Sharon Tate são das mais bonitas do filme. Ela chega a LA, ela está feliz com o marido, ela dança na Mansão Playboy, ela vai comprar uma primeira edição do livro "Tess of the d'Ubervilles", de Thomas Hardy, para oferecer ao marido - e que, dez anos mais tarde, fará a adaptação ao cinema para nos "dar" a conhecer a beleza de Nastassja Kinski - e ela vai ver-se no cinema em mais uma cena onde há... pés. Todo o filme é extremamente erótico e politicamente correcto em relação ao sexo, excepto para quem é podófilo - fetiche por pés descalços, ok? Não preciso de explicar o fim: Tarantino preparou-nos para ele ao longo do filme. Nessa cena final, quando o portão da casa de Sharon Tate se abre para o personagem Rick Dalton, ouçam os acordes de música. São os acordes de "Era uma Vez na América". E no momento em que, finalmente, aparece o título do filme, percebemos que a fábula esteve sempre lá, onde era lógico e inevitável no universo deste realizador único. Há quem chore no fim. E não é pelo dinheiro que pagou. Pagava, aliás, para ver e sentir tudo de novo.



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