António
“Variações”. Esta é a “praia” do Sérgio, que já fez de Van Gogh e agora faz o retrato completo, com roupas e orelhas, do nosso "Van Gogh" da música nacional. Podemos concordar com quem diz que o filme se devia chamar “António”, pois é mais sobre o homem antes de ser o artista, mas é também o homem que vai cantando, ao longo deste “musical” à portuguesa, as tais canções onde há mais dele do que nele próprio. Faltam aquelas pequenas piscadelas de olho a factos sobejamente conhecidos como, por exemplo, como se chamava a barbearia onde conheceu o Júlio Isidro? Vemos uma cena em que António mostra o espaço ao amigo (mais que amigo) Fernando Ataíde - um Filipe Duarte também de boa colheita -, onde falam dos valores do trespasse. E a coisa resolvia-se assim: “E, António, já pensaste num nome? Sim, Fernando, estava a pensar ‘É pró Menino e prá Menina’. Gostas? Gosto. E as casas-de-banho vão ser mistas?”. Claro que esta alusão à casas-de-banho podia depois ser cortada na edição final, pois se calhar nos anos 80 isso nem se discutia, já que, como vimos pelas roupas do menino António ao longo do filme, Lisboa era uma cidade mais à frente no seu tempo do que a normalização e pasmaceira actual. Sei que o Vítor Rua também devia ter aparecido no filme, sobretudo a dizer numa sessão de estúdio: “Pá! Vou-me embora! O tipo desafina que se farta e está a copiar cenas dos Abba!”. Bastava isso. Eu sei que havia pouco dinheiro - e não vamos ver cenas no youtube com a performance do Sérgio Praia a ser comparada, lado a lado, com 25 minutos de um concerto do verdadeiro António -, mas mais umas imagens de arquivo da RTP (que apoia a obra), estilo 30 segundos do episódio de “O Passeio dos Alegres”, não creio que estragasse a magia levada, finalmente, ao grande ecrã pelo João Maia. Mas, mesmo faltando estas pequenas coisas, o filme é enorme, pois o António encheu-nos e ainda nos enche de vida. Obrigado por este filme. Não o percam.



Comentários
Enviar um comentário