Vício
"Vice" não vai ganhar o Óscar de melhor filme, mas não deixa de ser uma das melhores películas que está aí para ser vista. O realizador Adam McKay escolheu retratar a vida do antigo vice-presidente dos EUA, Dick Cheney, com uma mistura entre o cómico e o documental. Dada a seriedade das questões em que o número 2 de George W. Bush esteve metido - desde o 11 de Setembro à guerra do Iraque -, é uma opção que corre o risco de ser mal-interpretada por alguns espectadores. É uma história demasiado séria que precisa de ser devidamente contextualizada, sobretudo quando se trata de chegar a um público mais novo e com menos memória histórica. Ou ainda de pessoas que não estão devidamente familiarizadas com as histórias de bastidores da política dos EUA. E isso pode fazer toda a diferença entre o que se vai ver e o que se poderá concluir no fim. Dick Cheney, avisa-se logo no início, é uma das personagens mais secretas da recente história dos EUA. Foi vice-presidente dos EUA durante os anos de Bush filho, mas há muito que estava dentro do sistema. Mais precisamente, desde os anos 70, quando chegou a chefe de gabinete de Gerald Ford, após a demissão de Nixon. A par de Cheney, temos ainda Donald Rumsfeld, interpretado por Steve Carrel. Para os portugueses, poderíamos ainda enquadrar neste grupo uma personagem real bem conhecida entre nós e que era um outro amigo pessoal de Rumsfeld: o então embaixador dos EUA em Lisboa, Frank Carlucci, que, em 1978, chegou a director-adjunto da CIA. Cheney pertence a uma lista de algumas figuras-chave cuja existência na política norte-americana remonta aos anos 70. E isso dá precisamente azo a um dos momentos mais imaginativos do filme, onde McKay cria um falso fim da história - quando Cheney se retira da política no início dos anos 90 e entra no sector privado - para depois retomar o filme com a chegada a vice de W. Bush - um papel que Sam Rockwell representa melhor do que o próprio W. Bush!
Adam McKay dificilmente poderia ter conseguido captar melhor a figura de Cheney sem ser através de um ar de paródia. E, para isso, contribui muito a incrível prestação de Christian Bale - que poderá bem valer-lhe o Oscar. Como tudo aquilo que Chney fez é demasiado sério - por exemplo, a empresa onde o "vice" trabalhava antes de chegar à Casa Branca viu as suas acções subirem 500 por cento à custa da morte de milhares de norte-americanos na guerra do Iraque -, um filme mais sério arriscava-se ou a ser proibido ou a gerar revoltas populares após o seu visionamento. A paródia é uma forma inteligente de passar uma mensagem para futuras gerações. Note-se, por exemplo, no cartaz que anuncia o filme: temos Cheney com um bolo meio comido na mão. A cena faz lembrar um episódio praticamente esquecido, em que George W. Bush se engasgou com um "pretzel" e quase morreu asfixiado, o que iria permitir a Cheney herdar o comando efectivo dos EUA.
"Vice" é assim um filme que encaixa como mais uma peça de um pequeno puzzle que retrata a América dos anos 70 até aos dias de hoje e que culmina precisamente com a chegada de Trump - que filme esse não vai dar daqui a uns anos... Fazem ainda parte desse puzzle outras obras como "Nixon" (1995) e "W" (2008) de Oliver Stone - sem esquecer o seu "JFK" (1991). Juntam-se ainda obras recentes como o "LBJ" (2016) e o "American Made" (2017), com Tom Cruise. "Vice" é uma obra que tem de ser vista ao lado destas outras, pois conta também essa parte da mesma história secreta da América. Aquela onde, ainda hoje, é proibido entrar, mas apenas vislumbrar. Seja através de uma obra séria, documental ou mesmo em tom de paródia. É uma história onde ainda falta conhecer a vida de mais quatro presidentes dos EUA - Jimmy Carter, Reagan, Bush pai e Clinton - e que retratam um período que vai desde o fim da Guerra do Vietname (anos 70) até ao início da primeira guerra do Golfo (anos 90), com o aumento do narcotráfico pelo meio, tema bem retratado na série de televisão "Narcos".
Diz-se que W. Bush só não foi assassinado porque era filho de um ex-presidente dos EUA e ex-director da CIA amigo pessoal de de Cheney. Mas, como o filme bem o demonstra - daí o tom de paródia, pois foi exactamente numa triste comédia que aquilo se tornou - não foi necessário matar o presidente para colocar o "vice" no seu lugar. O 11 de Setembro foi um bom pretexto para Cheney poder manobrar todas as peças por si delineadas antecipadamente e atacar o Iraque. Só faltou Durão Barroso aparecer no filme, na cimeira dos Açores, a receber W. Bush antes da invasão. Mas, isso fica para outro filme. Caso alguém o faça...
Adam McKay dificilmente poderia ter conseguido captar melhor a figura de Cheney sem ser através de um ar de paródia. E, para isso, contribui muito a incrível prestação de Christian Bale - que poderá bem valer-lhe o Oscar. Como tudo aquilo que Chney fez é demasiado sério - por exemplo, a empresa onde o "vice" trabalhava antes de chegar à Casa Branca viu as suas acções subirem 500 por cento à custa da morte de milhares de norte-americanos na guerra do Iraque -, um filme mais sério arriscava-se ou a ser proibido ou a gerar revoltas populares após o seu visionamento. A paródia é uma forma inteligente de passar uma mensagem para futuras gerações. Note-se, por exemplo, no cartaz que anuncia o filme: temos Cheney com um bolo meio comido na mão. A cena faz lembrar um episódio praticamente esquecido, em que George W. Bush se engasgou com um "pretzel" e quase morreu asfixiado, o que iria permitir a Cheney herdar o comando efectivo dos EUA.
"Vice" é assim um filme que encaixa como mais uma peça de um pequeno puzzle que retrata a América dos anos 70 até aos dias de hoje e que culmina precisamente com a chegada de Trump - que filme esse não vai dar daqui a uns anos... Fazem ainda parte desse puzzle outras obras como "Nixon" (1995) e "W" (2008) de Oliver Stone - sem esquecer o seu "JFK" (1991). Juntam-se ainda obras recentes como o "LBJ" (2016) e o "American Made" (2017), com Tom Cruise. "Vice" é uma obra que tem de ser vista ao lado destas outras, pois conta também essa parte da mesma história secreta da América. Aquela onde, ainda hoje, é proibido entrar, mas apenas vislumbrar. Seja através de uma obra séria, documental ou mesmo em tom de paródia. É uma história onde ainda falta conhecer a vida de mais quatro presidentes dos EUA - Jimmy Carter, Reagan, Bush pai e Clinton - e que retratam um período que vai desde o fim da Guerra do Vietname (anos 70) até ao início da primeira guerra do Golfo (anos 90), com o aumento do narcotráfico pelo meio, tema bem retratado na série de televisão "Narcos".
Diz-se que W. Bush só não foi assassinado porque era filho de um ex-presidente dos EUA e ex-director da CIA amigo pessoal de de Cheney. Mas, como o filme bem o demonstra - daí o tom de paródia, pois foi exactamente numa triste comédia que aquilo se tornou - não foi necessário matar o presidente para colocar o "vice" no seu lugar. O 11 de Setembro foi um bom pretexto para Cheney poder manobrar todas as peças por si delineadas antecipadamente e atacar o Iraque. Só faltou Durão Barroso aparecer no filme, na cimeira dos Açores, a receber W. Bush antes da invasão. Mas, isso fica para outro filme. Caso alguém o faça...



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