No Porto, com o Fantas. As escolhas

Passar uma semana no Porto a ver filmes e decidir sobre que prémios entregar aos mesmos. Que melhor programa? Quando Mário Dorminsky me convidou para ser jurado da competição Semana dos Realizadores do Fantasporto 2018, foi um sonho tornado realidade. Afinal, em 1992, era eu apenas um estagiário de “O Primeiro de Janeiro” quando comecei a seguir as noites de cinema do “Fantas”. Foi ali que vi, pela primeira vez, filmes míticos como o “Wild at Heart”, de David Lynch e o “Reservoir Dogs”, de Quentin Tarantino. Também me deslumbrei com um “Toto L’Heros” e o “Braindead” de um certo neo-zelandês chamado Peter Jackson. Agora, no momento em que o Fantasporto chegou ao seu 38º festival, em que é uma marca incontornável do Porto, posso dizer que também faço parte desta história. Tive a sorte de poder contar com dois realizadores, Liam Gavin e Santiago Dellape, ambos profissionais do cinema, que aceitaram, de igual para igual, a opinião de um jornalista e escritor. Fomos mais do que colegas jurados, fomos amigos durante esta semana. A eles, um muito obrigado pela companhia e partilha de ideias e experiências. Sempre lhes disse que estaríamos ali para julgar, mas que no fim também seríamos julgados pelas nossas decisões. E fomos bastante criteriosos. Assim, é chegada agora a hora de explicar, uma por uma, as escolhas feitas.

Melhor Filme – True Fiction de Jin-Mook Kim


Esta é uma obra da Coreia do Sul, um país que nos trás filmes sempre surpreendentes e de alta qualidade. Este “True Fiction” captivou-nos pela generalidade da realização e da história. Uma trama que envolve políticos corruptos e crimes de sangue. Começa com um singelo atropelamento de um cão pelo político e a falta de um pedido de desculpas. A trama depois complica-se até atingir uma espiral de violência que poderia ter sido evitada. No filme diz-se que “é baseado numa história real”. Quando terminou a projecção, encontrei o próprio realizador e perguntei-lhe apenas que história real era aquela, para que eu a pudesse pesquisar. Não conheço muito da realidade mediática da Coreia do Sul. Jin-Mook Kim sorriu perante a minha questão e explicou que a menção a “uma história real” era uma ficção usada para o filme. Percebi tudo. E decidi que aquele seria um bom candidato a melhor filme. Mais tarde, na hora de votar, foi fácil chegar a um entendimento. Ganhou também o Prémio de Melhor Argumento.

Prémio Especial do Júri – Bikini Moon – Milcho Manchevski

Bikini Moon Trailer from Milcho Manchevski on Vimeo.


Dos Estados Unidos, temos esta película onde uma equipa de filmagens segue a vida de uma veterana do Iraque com problemas mentais. É ela Bikini Moon, que vive num universo muito seu. À sua volta, o mundo daqueles que se dizem sãos de espírito e que a acompanham, mostra-nos que também não somos muito diferentes. Um filme dentro de um filme documental, sobre o amor e a vida na grande cidade. E nos tocou. Mereceu bem o prémio especial.

Melhor Realizador – “Al-Asleyeen/The Originals” – Marwan Hamed



Que belo filme nos chegou do Egipto. Uma comédia ou um drama? Ainda não o sei classificar. Mas, sobretudo uma crítica social à vida moderna, dominada pela espionagem tecnológica. É a história de um homem que foi despedido do banco onde sempre trabalhou e acabou por ser contratado por uma estranha organização que se intitula “O Espírito da Nação”. Arranjam-lhe emprego num bunker secreto numa companhia de telecomunicações, onde tem acesso a todas as imagens e sons que é possível captar de uma pessoa enquanto esta utiliza o telemóvel ou computador pessoal. Pelo meio, temos uma lição sobre a cultura egípcia. A antiga, antes dos romanos. Ficção? Não sei… Sei é que mereceu o prémio de Melhor Realizador, mas poderia ter obtido outros caso “True Fiction” não nos tivesse convencido. Se conseguir ultrapassar a barreira da língua num mercado de exibição demasiado dominado pelo poder do cinema em inglês, este era um filme que ficaria bem num cartaz em Portugal.

Melhor Actor – Eric da Silva, em “Uma Vida Sublime” de Luís Diogo


Nem fui eu, como representante português no painel de jurados, quem mais defendeu a entrega deste prémio a um actor português. Para mim, foi a melhor escolha, mas sentia-me estava algo condicionado em dar um prémio a um luso num festival de cinema internacional em Portugal. Só que Eric teve o condão de agradar também aos outros jurados. Um deles irlandês e outro brasileiro. E foi o irlandês quem colocou o nome em cima da mesa e manteve-o como única escolha. No filme “Uma Vida Sublime”, de Luís Diogo, Eric da Silva é um anjo e um diabo. Consegue convencer-nos num e noutro papel. Tem segurança na representação. Com este prémio, Eric, que é um quase desconhecido no cinema em Portugal, tem agora mais responsabilidade. Tem ainda a vantagem de ser um luso-americano e Hollywood poderia ser o próximo passo de uma carreira que poderá prestigiar Portugal. Gostei de lhe ter dado o prémio porque o mereceu, mas também porque juntei o meu nome ao seu. Espero que ele nos honre a ambos.

Melhor Actriz – Soho Rezanejad, em “The Charmer” de Milad Alami


Vi nascer uma estrela, pois estava lá. O filme “The Charmer” conta a história de um refugiado iraniano a viver na Dinamarca e que tenta seduzir mulheres de modo a conseguir que se casem com ele e possa assim evitar a extradição para o Irão. Tem azar, pois aquilo é mais para o sexo. Embora o persa seja apelativo às frias louras, o protagonista principal – interpretado por Ardalan Esmaili, também num trabalho que nos deixou algumas certezas, caso não tivéssemos já Eric da Silva – não tem grande sorte. Até que conhece Sarah, uma descendente de iranianos, mas nascida na Dinamarca. Ela aceita casar com ele, só que o desfecho da história não é o esperado… Ainda acredito que este filme poderá um dia passar em Portugal, por isso não me alongo na história. A actriz que faz de Sarah é que nos interessa. É uma estreia. Não é actriz profissional, tem 28 anos e é artista musical. Mas, ela enche uma tela. O seu nome esteve sempre de fora da lista que tínhamos nas reuniões de jurados. Mas, na hora da decisão final, quando o Liam me sugeriu aquela actriz, respondi sem hesitações que sim, era a melhor escolha. E o Santiago ajudou logo a dar-nos a certeza da nossa opinião. Soho Rezanejad nasceu em Nova Iorque, de família iraniana. Foi depois viver para a Dinamarca. No sábado de manhã, após a divulgação dos premiados à Imprensa, e ao ver que ela tinha uma página no Facebook, deixei-lhe uma mensagem bastante directa e simples: “Parabéns pelo seu prémio de Melhor Actriz no Fantasporto 2018!”. Passado uma hora, ela escreveu a agradecer e a perguntar onde é que poderia ter acesso à informação. Enviei-lhe alguns links de notícias já publicadas. Soho informou-me depois que, por coincidência, estava em Portugal. Na zona de Lisboa. Coloquei-a em contacto com a organização e, nessa noite, a actriz subiu ao palco do Rivoli para ir buscar o seu primeiro prémio como actriz. Se ganhar outros daqui para a frente, saberei sempre que o primeiro que recebeu, fui eu quem lho entregou. Tal como Eric da Silva, espero que ela me venha a honrar na escolha que fiz.

Melhor Filme Orient Express Ajin: Demi-Human – Katsuyuki Motohiro


Para a categoria de filmes asiáticos, algo que o Fantasporto tem tradição, decidimos dar o prémio de Melhor Filme a uma película sem história. Basta dizer que há uma raça de humanos que é imortal, mas não imune a dilacerações físicas, mas que consegue regenerar-se após a morte cerebral através do melhor pedaço de carne, para imaginar um filme daqueles que o público da meia-noite delira. E é apenas isso. E já é mesmo muito bom.

Prémio Especial Orient Express - Bhoy Intsik de Joel Lamangan

Foi das Filipinas que nos chegou esta película doce a amarga. Filmada num bairro num cemitério, conta-nos a história de Bhoy Intsik, um travesti interpretado por Raymond Francisco, que venceu o prémio de Melhor Actor no festival em Manila. As cores alegres misturam-se com o ambiente pobre e deprimente da vida quotidiana nas Filipinas. Não direi que seja um “Feios, Porcos e Maus”, mas poderia andar lá perto.

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