Considerações em forma de água

O filme “Shape of Water” - “A Forma da Água” -, do realizador mexicano Guillermo del Toro, nomeado para 13 Óscares, é uma fantasia. Como tal, não podemos pedir-lhe qualquer veracidade. Apenas nos devemos deixar ir, como na corrente de um rio. E desfrutar. Por isso, quando li a crítica de Eurico de Barros no Observador, fiquei perplexo com a sua falta de sensibilidade. O Eurico é uma pessoa que, apesar de não conhecer pessoalmente, tenho em boa consideração. Não precisamos de estar sempre de acordo, mas há muitos gostos semelhantes, por exemplo, no que diz respeito à BD. E isso basta-me para saber que tem cultura e sabe do que fala. No entanto, não consegui compreender onde o crítico quis chegar quando escreveu: “Assim, ‘A Forma da Água’ tem o laboratório ultra-secreto e super-seguro menos secreto e seguro da história do cinema fantástico e de ficção científica, sem guarda permanente nem controlo rigoroso de acesso”. Sim, Eurico. A segurança no laboratório é fraca. Bem, até há um guarda que é morto durante a fuga do monstro quando estava a fazer bem o seu serviço. Mas, mesmo que tenhas razão, e depois? Isso tira qualquer tipo de credibilidade à ideia de fantasia do filme e à forma como Del Toro nos conta esta fábula? Não. Nem se nota... Depois, Eurico ainda acrescentou: “As empregadas da limpeza entram lá como se fosse a pensão da coxa, sem a menor supervisão, ficam sozinhas a trabalhar e os responsáveis nem sequer se preocupam em ocultar a criatura dos olhos delas”. Por favor, Eurico! Mas, essa é precisamente a beleza do filme! As empregadas de limpeza, aquelas mulheres anónimas cuja presença e importância ninguém soube atribuir nos filmes de James Bond - quem limpa aquela confusão toda no laboratório de Stavro Blofeld depois da fuga do 007? -, são as heroínas desta história. Para frisar isso, pergunto a Eurico se acaso recorda-se da cena em que o polícia mau força o cientista russo a indicar-lhe os nomes e patentes dos operacionais que organizaram a fuga do monstro do laboratório? O cientista respondeu, sorrindo, que não havia nem nomes nem patentes: “Elas só limpam”, respondeu - um papel interpretado por Michael Stuhlbarg e que vai merecer um texto dedicado apenas a si. A cena inicial do filme é lindíssima. Del Toro mostra-nos, desde o início, que estamos num campo do sonho, da fantasia, como que debaixo de água. E é na água que acontece o amor. A fotografia (nomeado Dan Laustsen), toda a direcção de arte (nomeados Paul Denham Austerberry, Shane Vieau e Jeff Melvin) e até os figurinos (nomeado Luis Sequeira) decalcam de forma óbvia essa outra bela fantasia do cinema moderno. É impossível ver o filme de Guillermo del Toro e não recordar a eterna Amélie Poulin e o seu extrordinário destino realizado por Jean-Pierre Jeunet. Mesmo que se tenham passado já 17 anos desde a estreia do filme francês, a comparação é imediata entre estes dois filmes. Existem, é claro, outras referências, como "O Monstro da Lagoa Negra", mas essa é assinalada no texto de Eurico de Barros. No entanto, ficou de fora a mais linda de todas, aquela que marca a fantasia do filme e retira dela toda a veracidade que o crítico do Observador exigiu ao realizador mexicano. O "New York Times", por exemplo, não deixou de assinalar essa influência de Amélie. Tenho a certeza que, no dia 4 de Março, Guilherme del Toro vai levar a estatueta de melhor realizador para casa. Mesmo que o Eurico Barros discorde. Não direi, contudo, que seja uma decisão justa. Tenho outra preferência - e que direi qual é noutro texto -, mas aposto o dinheiro no trabalho do mexicano.

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